
Espetáculo Cine Camaleão – A Boca do Lixo continua com temporada até fim de março, mas agora na rua onde a história da peça é ambientada
“Eu quero ser a musa da boca, da nova fase da boca”, anuncia Wanda Scarlatti, personagem da atriz Mel Lisboa, numa das primeiras cenas do espetáculo Cine Camaleão – A Boca do Lixo, da Cia Pessoal do Faroeste, que estreou em outubro de 2011 e segue em temporada com indicação a vários prêmios. A fala parece mais um presságio: o grupo de teatro está de mudança confirmada para a Rua do Triunfo, no coração do lugar que já foi considerado a Hollywood Brasileira, a Boca do Lixo. Com esse projeto, a Cia começou a enveredar também pelo cinema. Já surgiram conversas com o rei da porno-chanchada, David Cardoso. Seria esta uma nova fase da Boca?
Tudo começou quando o diretor Paulo Faria recebeu o comunicado do proprietário do atual espaço ocupado pelo grupo, na Alameda Cleveland, de que teria que entregar o prédio pois este entraria em reforma. Faria começou uma busca de uma nova sede pela mesma região e se deparou com uma casa antiga, totalmente revitalizada, na rua do Triunfo, pronta para ser ocupada. A casa tem praticamente o dobro do tamanho da atual sede e vai possibilitar aumentar a lotação do espetáculo, de 40 para 100 lugares por sessão. O que será ótimo, pois numa das sessões 20 pessoas tiveram que voltar para casa porque já não cabia mais ninguém.
Paulo Faria não acredita em coincidências. Ele comenta que não encontrou a nova casa por mero acaso. “Antes de chegarmos até esta montagem, entramos na história da Boca, conhecemos suas ruas, conversamos com os profissionais da época, inclusive trouxemos alguns deles para trabalhar conosco, como o José Roberto Índio, que nos auxiliou nos efeitos especiais, o F. E. Kokocth, que nos auxiliou no figurino. Estamos resgatando a história da região e fomos presenteados com esse achado”, diz. Detalhe: a entrega das chaves será feita no dia em que a Cia completa 14 anos de atividade.
Triunfo
Cine Camaleão – A Boca do Lixo, da Cia Pessoal do Faroeste, realmente começou o ano de 2012 com o pé direito. Já no primeiro fim de semana do ano, a reestréia do espetáculo na Sede Luz do Faroeste teve casa lotada. Muito se deve ao boca a boca desde o início da temporada em outubro de 2011 e agora às indicações aos prêmios Shell, Cooperativa Paulista de Teatro e Governador do Estado, este último da Secretaria de Cultura.
A aprovação do público é tão grande que há quem já tenha visto o espetáculo 15 vezes, como o musicista Eduardo Albertino. “Fico inspirado para tocar piano sempre que venho assistir a peça. Ela tão rica, tão cheia de detalhes”, diz completando que a companhia ainda oferece oportunidade do público pagar quanto puder. “Isso é raro. É bom ver que grupos de teatro como a Cia Pessoal do Faroeste estimulam a formação de platéia”, destaca.
Esta é a quarta edição que o Pessoal do Faroeste é contemplado pelo Edital da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo para contar a historia da região da Luz na capital.
Cine-teatro
O espetáculo é uma experiência cine-teatral. Para a montagem, a companhia filmou o Faroeste na Rua Apa, com próprio elenco da peça, que retrata o crime do Castelinho da Rua Apa, um dos maiores mistérios de São Paulo. Toda a estética do filme foi feita baseada na Boca do Lixo, período em que é contada a história. E assim, a Cia mergulha na região do centro da cidade que já foi considerado como a Hollywood Brasileira entre os anos de 60 e 80 - reduto que deu ao país filmes com O Pagador de Promessas, A Margem, os Faroestes Feijoada e as Pornochanchadas. O Público paga quanto puder para assistir ao espetáculo.
A peça se passa na década de 70, momento de crise da produção cinematográfica brasileira. Com 14 anos de existência, 11 anos dedicados a estudos sobre o Centro da Cidade, temática de suas peças. E a Boca do Lixo (uma quadra entre a rua Vitória e a rua Triunfo, na Luz, onde se concentraram todas as grandes produtoras de cinema da época) e o misterioso tiroteio no Castelinho da rua Apa (até hoje sem respostas) são o ponto de partida de Cine Camaleão.
Mel Lisboa empresta sua sensualidade a esta produção que fala do cinema marginal paulista. Ela vive Wanda Scarlatti, uma cantora POP em 1978 – uma espécie de Cher brasileira –, ambiciosa, deseja ser a primeira mulher a fazer cena de sexo explicito no Brasil, e contrata a decadente Cine Camaleão para a parceria. Roberto Leite vive Tony Reis, um dos grandes cineastas de Faroeste Feijoada da era decadente da Boca. Beto Magnani vive seu irmão, Max Reis, um ator com formação no teatro-circo, conceituado no cinema e TV que enfrenta o vício do álcool e das drogas. Juliana Fagundes é Vera Selma, esposa de Tony Reis, uma atriz que deseja ter seu sucesso de volta. Lorenna Mesquita vive uma bela garota indígena, Indianara, que chega à Boca e sonha ser atriz de cinema e TV; Thais Aguiar vive Penélope, atriz e delegada americana do Dops, que investiga o possível envolvimento da Cine Camaleão com um terrorista que fora seu amante.
O dramaturgo paraense radicado na Capital há mais de 20 anos Paulo Faria – Premio Nacional de Dramaturgia por Mulher Macaco Plínio Marcos/2000, Premio CocaCola por Um Certo Faroeste Caboclo, 1999, indicado ao Shell e CPT em 2009 pelo texto de Meio Dia do Fim, – assina a dramaturgia e direção da peça.
Antes de ensaiar o espetáculo, o elenco filmou O Faroeste da Rua APA, e em cena da peça, conta-se a história da Produtora de Entretimentos Cinematográficos Cine Camaleão que acabara de filmar seu longa O Faroeste da Rua Apa, ambientado em 1978, ano da produção do filme. Durante a historia em cena os atores assistem os 20 minutos finais daquela produção, esperando a tal cena de sexo.
Para produzir o filme e a peça o Pessoal do Faroeste foi a Boca do Lixo e trouxe José Roberto Índio, um dos grandes artistas da Boca premiado em efeitos especiais e E. F. KoKotch, também premiado diretor de arte da Boca, ambos ficaram marcados por um tipo comum na Boca, o tipo indígena que também fazia efeitos especiais para os longas, personagem inspirador de Indianara de Cine Camaleão.
O espetáculo ficará em cartaz até fim de março de 2012 - uma das poucas produções que resgata as longas temporadas - na Sede Luz do Faroeste, a 100 metros do Sesc Bom Retiro. A Companhia promove conversas e palestras intituladas Bate Boca com grandes nomes da Boca, como David Cardoso, Guilherme de Almeida Prado, Máximo Barros e outros.
O inédito Cine Camaleão – A Boca do Lixo tem como proposta de dramaturgia associar a investigação teatral da Cia. à história do popular gênero cinematográfico, ocorrido no centro de São Paulo com recorte entre os anos de 1960, estendendo-se a 1980, quando a região ficou conhecida como Quadrilátero do Pecado.
Boca do Lixo é a designação pejorativa para a região central da capital paulista localizada entre os bairros Luz e Bom Retiro. Tudo começou na década de 1920, quando as salas de cinema, distribuidoras, fábricas e lojas de equipamentos começaram a florescer na região. Produtoras de cinema como a Paramount, a Fox e a MGM se instalaram por lá. Décadas mais tarde, a área se tornou o maior reduto do cinema do país.
Teria sido Oswaldo Massaini, com sua Cinedistri, o primeiro a instalar-se, em 1949. Nos anos 1960, conseguiu seu grande feito, a nossa única Palma de Ouro em Cannes, com O Pagador de Promessas. A partir daí, as produções começaram a florescer. Na década de 1970, a produção intensificou o teor sexual e entrou no período que ficou conhecido como a fase da pornochanchada, ainda que de pornográfico nada tivesse. Era um cinema popular que falava diretamente ao público brasileiro.
O próprio público que frequentava a região compunha o cenário dessa produção: vigaristas, bancários, homossexuais, policiais, jornalistas, prostitutas, traficantes, malandros... Este ambiente também atraiu a comunidade artística que se abrigou em ruas como a do Triunfo, Aurora e Vitória. A convivência era pacífica.
Nos anos 1980, houve o boom dos filmes de sexo explícito e alguns resquícios de bons filmes. Aos poucos, as produtoras começaram a fechar e sair do centro. E assim teve início o abandono da região, que culminou na Cracolândia dos anos 90 e dos dias de hoje, transformando-se em uma das regiões mais degradadas da cidade. Hoje, a região abriga prostituição, consumo de drogas e comércio de eletrônicos. Ao lado de lugares sofisticados como a Sala São Paulo.
Cine Camaleão – A boca do lixo
Temporada de 15 de outubro de 2011 a 25 de março de 2012
Todos os sábados às 19h e 21h e domingos às 19h
Duração: 75 minutos
Ingressos: Pague Quanto Puder (Quem chega uma hora antes define quanto quer pagar depois de ter visto a peça)
Antecipados ou reserva por R$ 30 (quem ligar antes para reservar lugar perde a vantagem do pague quanto puder)
Local: Sede Luz do Faroeste
Alameda Cleveland, 677 - Campos Elíseos – 3362-8883
40 lugares
Ficha Técnica
Direção Geral e Dramaturgia: Paulo Faria
Elenco: Beto Magnani, Juliana Fagundes, Lorenna Mesquita, Mel Lisboa, Roberto Leite e Thais Aguiar
Assistente de direção: Higor Vasconcelos e Robson Teuri
Direção de arte: Paulo Faria
Cenário e Figurino: F. E. Kokocht e Paulo Faria
Visagismo: Salão C. Kamura
Maquiadores: Márcio Granado e Natália Alves
Iluminação: Dário José, Paulo Faria e Tomate Saraiva
Direção de Vídeo: Dário José e Sérgio “Pizza” Gambier
Canção original: Eliseu Paranhos
Trilha: Felipe Roseno (filme) e Pessoal do Faroeste (jingle, vinhetas, paisagens sonoros – criadas com elenco em sala de ensaio sob regência de Denise Venturini)
Consultoria som\áudio: Paulo Gianini
Criação da logo Cine-Camaleão: Luiz Pinto
Designer gráfico: Thiago Mancuzo
Finalização: Franco Zampezzi
Palpiteiros: Pessoal do Faroeste
Preparação Vocal: Denise Venturini
Preparação Percussiva: Jorge Peña
Preparação Física: Érika Moura
Preparação de Sapateado e coreografia de sapateado: Bruno Vieira
Produção Executiva: Higor Vasconcelos
Produção Técnica: Robson Teuri
Produção de Comunicação: Lorenna Mesquita
Direção de Produção: Paulo Faria
Direção de Palco: Sandro Alves
Costureiros: F. E. Kokocht, Juliana Miyuki
Cenotécnicos: Robson Teuri e Higor Vasconcelos
Fotos da peça: Lenise Pinheiro
Fotos do filme: Dário José e Sergio Pizza
Fotos do processo: Rodrigo Reis
Consultoria Histórica: Rose Silveira
Cosultoria Astrológica: Claudia Lisboa
Consultoria Jurídica (julgamento simbólico Preto Amaral): Dra. Luciana Zaffalon Leme Cardoso (Defensoria Pública do Estado)
Patrocínio: Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo / Secretaria Municipal de Cultura / Prefeitura de São Paulo
Sobre a Cia. Pessoal do Faroeste
Fundada há 14 anos, Pessoal do Faroeste é uma companhia de teatro que há 10 anos se dedica à pesquisa sobre o entorno da Estação da Luz - na região central de São Paulo - focada na vida social e política do povo brasileiro por meio de seu imaginário popular e de sua cultura. O grupo já obteve vários prêmios: Um Certo Faroeste Caboclo - Prêmio Teatro Jovem Coca-Cola e Prêmio Funarte na Cidade, A Mulher Macaco - Primeiro Lugar no Concurso Nacional de Dramaturgia Plínio Marcos, Trilogia Degenerada - Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro, entre outros.
No dia 21 de março de 2012, haverá um julgamento de Antonio Augusto do Amaral, no Salão Nobre da Defensoria Publica. O Preto Amaral personagem titulo da peça Os Crimes de Preto Amaral, que a Cia montou em 2006 e que faz parte do projeto Trilogia Degenerada. Desde este período a Cia move um abaixo assinado para a remoção do busto do Amaral, por não ter sido julgado e ter sido morto sob tortura. Todo este material virará um documentário.
