segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Orfeu na Cultura Ocidental





Por Micheliny Verunschk / www.cronopios.com.br

O mito de Orfeu impressiona o Ocidente há alguns milhares de anos, deixando sua marca no imaginário e nas artes desde que Ibykos, no século VI a.C., cita-o pela primeira vez. Do Orfismo, surgido como nova expressão da espiritualidade humana ao pregar a imortalidade da alma, às manifestações na literatura, artes plásticas, cinema , música e dança, Orfeu surge como arquétipo da condição humana entre o sublime e o absurdo de estar vivo quando se é fadado a perder o que mais se ama.



Num rápido panorama da presença desse mito entre nós podemos citar sua influência na Filosofia nas obras de Sócrates e Platão; na literatura clássica em Virgílio; na literatura contemporânea em língua portuguesa em Jorge de Lima (Invenção de Orfeu), Vinícius de Morais (Orfeu da Conceição) e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros; ainda na literatura contemporânea, nas obras de Pope, Novalis, Milton e mesmo em Salman Rushdie (O Chão que Ela Pisa). O mito aparece em ópera pela primeira vez em 1607, na obra L’Orfeo, de Montiverdi, e na primeira montagem para balé realizada na Alemanha, em 1638, na obra de Shütz, Orpheus and Eurydice. No século XIX, surge na música de Offenbach, Orfeu no Inferno e em composições de Lizst e Stravinsky. Orfeu se apresenta também na tendência das artes plásticas denominada Orfismo ou Cubismo Órfico que influenciou Guillaume Apollinaire (criador do termo), Marcel Duchamp e Francis Picabia e que se caracterizou pela elaboração de pinturas como jogos poéticos e musicais. No cinema, o mito é visitado por Jean Cocteau (Orpheus, de 1949, e Le Testament d’Orphée, de 1959), Marcel Camus (Orfeu Negro, de 1959) e Carlos Diegues (Orfeu, de 1999). Em quadrinhos, Neil Gaiman apresenta a personagem em Sandman – Orpheus. Mesmo o Cristianismo é devedor de Orfeu e dos Mistérios que representa. Durante a Idade Média, em algumas representações Cristo era chamado de “Orfeu Báquico” e a descida de ambos ao reino dos mortos supõe ligações mais sutis que entrelaçam as duas personagens numa figura ao mesmo tempo múltipla e única.

O Mito de Orfeu

Orfeu nasceu na Trácia, filho de Apolo, deus da música e do canto, e de Calíope, musa da poesia épica1. Apolo o presenteia com sua lira e ensina-o a tocá-la, arte que Orfeu aprende com tal maestria que se torna capaz de comover, com sua música, tanto homens quanto formas de vida selvagem. Mesmo as pedras, os ventos e as tempestades se encantavam por sua música. Diz-se que sua lira adormecia as feras, fazia germinar e florescer as plantas e era capaz até mesmo de incitar batalhas nos corações dos guerreiros. Sedutor, Orfeu dominava as forças da natureza e o coração dos homens.

Com tal poder, Orfeu cativou o coração da bela ninfa dos arvoredos, Eurídice, e dela tornou-se cativo. Para celebrar seu casamento, convocaram Himeneu, o deus do casamento que, com seu archote de chama dourada abençoava as uniões. Entretanto, o archote do deus expeliu uma fumaça negra e esse mau augúrio confirmou-se durante o cortejo das ninfas pelo bosque. Eurídice exibia sua felicidade de recém-casada quando despertou o amor e cobiça de Aristeu, pastor e apicultor. O rude Aristeu passa, então, a persegui-la e, durante a perseguição, a ninfa pisa numa serpente e morre envenenada, para desespero de seu marido.

Aqui começa a jornada de Orfeu. Transtornado, ele tange sua lira com tal dor que comove os deuses e obtém permissão de Zeus para perscrutar a morada dos mortos em busca de sua amada. Orfeu dirige-se à caverna que fica ao lado do promontório de Tênaro e, assim, alcança o mundo dos mortos regido por Hades e Perséfone. Recebido pelo ameaçador cão de três cabeças, Cérbero, o herói logo o amansa com o som de sua lira. Essa música tão sublime muda, por alguns instantes, a ordem das coisas naquele lugar e os condenados interrompem as penas que cumpriam. Tântalo parou as tentativas de saciar sua sede eterna. A roda de Íxion tornou-se imóvel. Sísifo interrompeu a tarefa de arrastar montanha acima a mesma pedra que depois rolaria montanha abaixo. O abutre esqueceu-se de bicar o fígado de Prometeu. As Danaides deixaram de juntar água em uma peneira. As Fúrias choraram de comoção e piedade.


Ao cessar a música, Orfeu estava diante dos soberanos dos mortos e a eles solicitou a dádiva de ter Eurídice de volta ao mundo dos vivos. Hades e Pérsefone concordaram, mas não sem impor uma condição, a de que, durante o retorno, Orfeu não olhasse nenhuma vez para trás para certificar-se da presença de Eurídice. E assim, o casal começa a empreender o caminho de volta e toda a felicidade do mundo cabia no coração de Orfeu. Ao se aproximar do limiar que separa os dois mundos, a dúvida tomou conta do herói: E se fora enganado pelos deuses? E se Eurídice não o tivesse acompanhado? Não contendo a ansiedade de ter a esposa nos braços e de certificar-se que ela estava mesmo ao seu lado, Orfeu volta-se para trás e, nesse instante, a ninfa morre pela segunda vez, desvanecendo-se como fumaça. Tentou segui-la, tentou tomar a barca de Caronte, mas seus esforços foram em vão. Profundamente ferido, Orfeu volta para sua terra natal e não cessa de cantar a sua dor.

Um dia, durante uma festa em honra a Dioniso, mulheres trácias3 embriagadas assediam Orfeu, que as repele. Possuídas de profunda ira e enlouquecidas por terem sido rejeitadas, as mulheres estraçalham Orfeu. Após sua morte, as Musas recolhem o corpo destroçado e o levam ao pés do monte Olimpo onde é cremado.Os deuses, penalizados, criam uma nova constelação em honra de Orfeu, que também é conhecida como Lira. Até hoje, por ali, um rouxinol canta os mistérios da vida após a morte e do amor que vence os limites da vida.

Orfismo
O Orfismo surgiu na Grécia Antiga como um contraponto ao espiritualismo mítico que via a morte como uma aniquilação total do indivíduo. Para o pensamento mítico, após a morte uma sombra ou pálido fantasma do que havia sido o ser humano descia ao Hades e lá teria uma existência de sofrimentos e incompletude. Esta “sombra” era denominada eidolon. O Orfismo, provavelmente sob influência de religiões orientais como o zoroastrismo dos persas e o culto de Osíris dos egípcios, surge como uma nova proposta para a existência espiritual humana ao anunciar a imortalidade da alma por meio de um ciclo de reencarnações, cujo objetivo seria lapidar o homem até que este se aproximasse ao máximo da perfeição dos deuses.

São alguns elementos do Orfismo:

O homem possui um princípio divino que, por algum motivo, é turvado por uma imperfeição. Ele precisa, então, reencarnar para corrigir essa falha.

A alma é preexiste ao corpo e a ele sobrevive.

Uma série de ritos iniciáticos do Orfismo se fazem necessários para despertar a compreensão do homem sobre essas verdades.

Sob o signo de Orfeu, filho de Apolo, o Orfismo é, por um lado, uma prática espiritual apolínea, ligada à vitória do homem sob a natureza representada pela morte. Orfeu desce aos infernos e embora volte de lá sem Eurídice, sua vontade prevalece. Ele vence a morte porque dela consegue retornar. Na mensagem central de que todo homem é um deus em potencial, o Orfismo ainda é tributário de Apolo no que isso tem de superação da condição humana, na sublimação do instinto selvagem, na ultrapassagem do pensamento mítico. Por outro lado, o Orfismo apresenta também um caráter dionisíaco. Basta lembrar o destroçamento de Orfeu pelas bacantes, mulheres trácias embriagadas pelo vinho de Dioniso (ou Baco)4. Os ritos iniciáticos órficos supunham também uma entrega ou antes, uma integração entre Dioniso e Apolo, uma pacificação entre a lira que domava feras e o destroçamento do corpo que liberta a alma.

O Orfismo marcou o pensamento grego, especialmente Tales, Anaximandro, Anaxímenes, os pitagóricos e Platão. A literatura grega também apresenta marcas do Orfismo em poetas como Píndaro, Ésquilo e Eurípides. O exemplo mais claro é o pensamento platônico. Em obras como A República e O Banquete a influência órfica é visível: a oposição entre o corpo e a alma com prevalência desta; a idéia do corpo como limitação insuperável; a necessidade da reencarnação para purificação e salvação do indivíduo. Não por acaso o Orfismo encontrará ecos no Cristianismo, posto que Platão será uma das presenças mais fortes no pensamento que deu base à igreja dos primeiros tempos.

Orfeu e o Cristianismo
As figuras de Orfeu e Jesus Cristo se confundem e entrelaçam. Muitos são os paralelos que se podem traçar entre as duas personagens, a começar pela filiação divina de ambos: o primeiro filho do deus-sol, Apolo; o segundo, filho do deus único, Iavé. Do mesmo modo que com sua lira Orfeu domina feras, Jesus domina mares, tempestades. Se com apenas uma ordem ou um gesto, Jesus domina a fúria dos demônios e os lança a uma vara de porcos que se precipita abismo abaixo. Com sua música sedutora Orfeu do mesmo modo doma Cérbero, o cão dos infernos. Tanto Orfeu quanto Jesus possuem poderes sobrenaturais no sentido de que por força da música ou da palavra ou mesmo da vontade traduzida num gesto as forças dionisíacas da natureza a eles se submetem.

Orfeu desce à mansão dos mortos para resgatar sua esposa, missão que se mostra impossível devido às próprias dúvidas do herói. Mas ele visita o mundo dos mortos e de lá retorna são e salvo. Jesus também tem sua Eurídice, Lázaro, amigo querido a quem ressuscita depois que este esteve por quatro dias morto e sepultado em uma caverna. É também pelo acesso de uma caverna que Orfeu chega ao Hades e, conseqüentemente, a Eurídice. Embora Jesus não visite o Hades diretamente na ocasião da morte e ressurreição de seu amigo, o paralelo se dá por meio dessas personagens secundárias mas ao mesmo tempo centrais e misteriosas, Eurídice e Lázaro. Ambos movem os heróis numa jornada em que vencer a morte é o principal motivo. Desses personagens secundários, pouco se sabe. Dela, que era uma ninfa desposada por Orfeu e cobiçada por Aristeu. Dele, que era irmão de Marta e Maria de Betânia, e por quem o Cristo chora após o falecimento. Eurídice, como a Eva do Gênesis, cai em desgraça por conta de uma serpente e, ao mesmo tempo, como a Mulher Vestida de Sol do Apocalipse tem a mesma serpente debaixo de seu pé. Tanto um quanto o outro, não se sabe bem por que culpa ou motivo, cumprirão a pena de morrer duas vezes. Talvez pela glória de Orfeu e Jesus em vencer a morte, Lázaro e Eurídice tenham que enfrentá-la por duas vezes na mesma existência.

Mas Jesus visitará o Hades e aqui é interessante ver como as histórias se cruzam. No mito de Orfeu, este visita o Hades e depois de seu retorno é estraçalhado pelas bacantes num ritual de paixão e fúria regado a vinho. Depois de tudo, ganhará um corpo estelar, como muitos heróis e semi-deuses do panteão grego. Jesus, por sua vez, oferece seu corpo simbolicamente fracionado (ou estraçalhado) em pedaços de pão molhados também em vinho que se transubstancia em seu sangue. Só depois desse rito ele estará pronto para visitar o Hades e de lá ressurgir vitorioso após três dias, com um novo corpo que não se sujeita às leis deste mundo. Trecho da oração do Credo cristão dá conta dessa semelhança: Ele (Jesus Cristo) foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à Mansão dos Mortos. Ressucitou ao terceiro dia. Subiu ao céus… O rito do Cristo Báquico será milenarmente reencenado nos mistérios da santa missa, pois como no Orfismo a repetição dos ritos é uma necessidade para que o iniciado compreenda e alcance a verdade e a purificação.

A presença do tema órfico na contemporaneidade reafirma o espaço da tradição clássica contextualizado na atualidade e acentua a centralidade do tema nas artes de uma maneira geral. Orfeu e Eurídice ainda têm muito a dizer. O mito se alonga e o eco de suas vozes cada vez mais se aproxima. Eles venceram o Hades.

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