Texto para o programa
Memória tem Boca
“Vai começar a sessão espírita!”, alguém anuncia, com ar de escárnio, a programação do Curta Cineclube, do Instituto Ozualdo Candeias, na Avenida Cásper Líbero, centro de São Paulo. Ali, em uma pequena sala comercial, as noites de segunda-feira se abrem ao encontro dos veteranos do cinema nacional, o pessoal da Boca do Lixo, um dos maiores polos de cinema que o Brasil conheceu entre as décadas de 1960 e 1980, na capital paulista. Na tela, curtas e longas que reveem o imaginário do país e a própria história de sua produção. Ao final das sessões ocorre sempre um debate acalorado, que depois se estende para a mesa de algum bar no bairro de Santa Ifigênia. Amém!
Na plateia estão atores, produtores, técnicos e diretores que contribuíram para a história da Boca e, não raramente, são reconhecidos na tela ou reverenciam aqueles que já se foram. Um dos homenageados recorrentes é o próprio cineasta que empresta nome ao instituto, autor do cultuado A margem, de 1967, um clássico do cinema dito marginal.
Não muito longe dali, na Rua do Triunfo, entre as ruas Vitória e Aurora, o domínio da Boca do Lixo, os fantasmas estão plasmados às edificações do lugar. Embora as lojas de eletrônicos de agora nem de longe se pareçam aos escritórios e estúdios do extinto polo, e os bares e hotéis sejam só reminiscências daqueles tempos, é como se tudo ainda estivesse no lugar pelas artes da rememoração. O pessoal ainda se encontra para tomar umas, conversar e rever amigos, apresentando aos curiosos os lugares onde as coisas aconteciam.
Contam a história da placa que um dia fora afixada à porta de um dos prédios comerciais indicando o “escritório” do Ozualdo Candeias. Na verdade, o lugar onde ele batia ponto, pode-se dizer assim, onde podia ser facilmente encontrado, planejando uma nova produção, um novo filme. Contam-se muitas histórias, muitas...
Dramas, comédias, faroestes, pornochanchadas, filmes eróticos. A Boca do Lixo chegou a produzir 100 filmes por ano no período de sua melhor performance. Atores e atrizes de maior ou menor quilate tiveram ali seus dias de triunfo. Alguns desapareceram no obscurantismo da história, outros permanecem nas telas da TV ou do cinema nacional revivido e prestigiado. Nas “sessões espíritas” do Curta Cineclube, os olhos ainda podem vê-los em início de carreira, jovens, em ascensão. É espantoso mesmo reconhecê-los em imagens esmaecidas: “Mas é mesmo o fulano, a sicrana?!”
No mapa da cidade de São Paulo, a localização das ruas onde o cinema brasileiro teve um de seus melhores capítulos é uma ação descarnada, desalmada. É preciso descer ao rés-do-chão onde as narrativas dão sentido ao traçado das ruas, ganham corpo, e onde a memória saliva da fome de imagem. Memória tem Boca.
Rose Silveira
Jornalista e historiadora
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